Pólvora em Chimango

Aqui no Sul se usa muito a expressão "não gastar pólvora em chimango" com o significado de não se perder tempo com bobagens ou com pessoas que não valem a pena. Seria equivalente a dizer "não dar pérolas aos porcos" ou qualquer outra coisa que traga em si o sentido de desperdício de tempo ou esforço.

Mas o quê vem a ser um chimango?

Ximango, que é a grafia brasileira (ch é castelhano, mas é como mais se usa por aqui) é uma ave de rapina que existe pelos pampas, muito parecida com o carcará nordestino. Tendo os mesmos hábitos dos corvos, urubus e outros carniceiros, não é de grande valia para servir de alimento e assim se tornar digna de ser caçada. Logo, gastar munição nele seria um grande desperdício, sendo melhor alvejar algo mais interessante como lebres, perdizes ou outras caças com mais conteúdo.

"Ximango" (Milvago Chimango)
Durante a Revolução Federalista, o governo apelidou os rebeldes de Maragatos, pois essa expressão de origem uruguaia tinha uma conotação depreciativa com "causadores de problemas". Em contrapartida, os federalistas revolucionários apelidaram os governistas de Chimangos, que convenhamos, pega bem pra políticos e carniceiros de várias estirpes, até hoje.

Atualmente, a maioria do povo usa a expressão adequadamente mas não sabe se origem dela vem da ave ou dos políticos. Até porque pra quem conhece a ave só de vista e sequer imagina seus hábitos, deve achar que a economia de pólvora é por sentir pena de matar o bicho, já que ele nem é tão feio assim. Outros, só sabem da parte política, e deduzem que os Maragatos desejavam uma solução não tão violenta ou que tinham poucos recursos bélicos, daí a necessidade de maneirar na pólvora.

Mas colocando de lado o amor ecológico, existe um segmento da sociedade de hoje que insiste em se chamar de cristão e se autoproclamar igreja que estão fazendo uma tremenda "chimanguisse".

Desde que Silas Malafaia começou sua guerrilha contra os ativistas gays, eu observo as posturas e me reservei o direito de não fazer comentários à respeito. Motivo? Eu acreditava que qualquer comentário sobre esse assunto era inútil, era gastar minha pólvora em chimango!

Não mudei de ideia. Mas com os fatos das últimas semanas envolvendo Marco Feliciano, resolvi chamar a atenção para alguns detalhes dessa rusga e provocar um pouco as pessoas pra ver como essa questão toda realmente pode acabar se mostrando algo completamente inútil e idiota quando observada de outro ângulo.

Achei as notas de repúdio das organizações cristãs cafajeste, pra não dizer coisa pior. Mostrou o quanto a dita igreja é política, e se junta e espalha com a mesma facilidade que os parlamentares. Que os laços cristãos que os unem são tão fortes quanto a fidelidade partidária no congresso...

Malafaia vive usando chavões nos prevenindo sobre uma "ditadura gay", nos advertindo histericamente sobre perseguição religiosa, e apelidou a PLC 122 de lei da mordaça. Não concordo com o referido projeto, mas concordo menos ainda com a abordagem do Malafaia na questão. E Marco Feliciano não é diferente em sua abordagem. Isso é compreensível quando consideramos que ambos vem do mesmo berço doutrinário-teológico, e seu comportamento que soa agressivo, prepotente, arrogante, autoafirmativo, exibicionista e dono da verdade, é fruto de uma construção filosófica antropocêntrica, onde o sobrenatural, o divino, o transcendental, são meras ferramentas no processo de construção de uma raça superior.

Antes que alguém comece a defendê-los ou ao seu grupo, sugiro que use a internet e procure os documentos e doutrinas sobre a "Teologia da Substituição", "Supersessionismo" e "Antinomianismo", e depois disso, compare as argumentações dessas doutrinas com o cerne doutrinário dos acima citados, que perceberá por si só o quanto ambos tem em comum. E o quanto isso é perigoso. E uma ideia maluca pode influenciar qualquer um, apesar de suas origens...

Uma enxurrada de doutrinas complicadas somadas a um temperamento pior ainda, resultou nesse espetáculo dantesco que aterroriza o Brasil e a verdadeira Igreja de Jesus dos nossos dias. E se além de constatarmos tudo isso, ainda avaliarmos se existem e quais seriam as soluções alternativas para essa disputa de egos financiada com dinheiro do povo - quer seja em ofertas, quer em impostos - nos surpreenderemos mais ainda ao descobrirmos que, de acordo com a própria Bíblia, tudo poderia ser resolvido de formas bem diferentes.

Algumas sugestões, obviamente segundo meu ponto de vista, que não são definitivas, e que jogam muito mais responsabilidade social nos ombros da igreja:

Casamento Gay - Entre outras coisas é cumprimento de profecias, logo, se alguém se diz cristão, se espera que as conheça e creia nelas. E também se espera que saiba o que vem junto com isso e como agir. E acima de tudo, que uma profecia não pode ser impedida de acontecer, mesmo quando achamos que vamos "sair perdendo". Outra, temos que aplicar Mateus 7:12 pra todos, inclusive os gays, não somente pra quem achamos que merece...

Adoção de crianças por casais homossexuais - O raciocínio aqui é simples e pra matar: se a igreja obedecesse a Bíblia, não existiriam órfãos disponíveis para adoção, pois todos estariam em ótimas condições, vivendo com famílias nos moldes defendidos pelos nossos amiguinhos briguentos, e isso nem estaria sendo discutido. Sim, já falei sobre chorar o leite derramado aqui antes...

Aborto - Vamos pela mesma linha, e acho que foi sobre isso que eu já falei. Se ao invés de investir milhões em templos suntuosos e parafernalhas de show absurdas, fossem criadas casas e day-spa's para cuidar das mulheres vítimas de abuso que desejam abortar, e também existisse um sistema de redistribuição de riquezas nos moldes da Igreja do primeiro século, o aborto também deixaria de ser um problema.

Eutanásia - Se as igrejas fizessem campanhas de saúde e estimulassem a alimentação correta, um ritmo de vida sustentável e investissem em planos de saúde que saíssem com baixo ou nenhum custo para seus membros, o peso de mortes por doenças evitáveis desapareceria, e as demais patologias seriam melhor combatidas. A maioria das pessoas, pelo menos nas igrejas e áreas amparadas por ela, morreriam de causas naturais.

Racismo - Voltamos ao ponto de partida. E aqui um grande passo seria começar a banir as doutrinas anti-semitas do meio cristão, afinal, Jesus era judeu e devemos à Ele quem somos. O anti-semitismo doutrinário é o estopim de praticamente todo o comportamento racista dentro das igrejas. Também é bom lembrar que numa das mais belas profecias que dizemos que acreditamos, pessoas de todos os tipos estão adorando diante do trono do Cordeiro. Sem distinção de raça, cor, língua ou povo. Só uma raça - humana.
Creio que já cheguei onde eu queria. Esses figurões aí não representam os cristãos. Nossa postura deve ser de agir no dia-a-dia, fazendo o bem sem olhar à quem.

Quanto aos que vem contra eles, tenho apenas a dizer uma coisa. Recentemente o Deputado Jean Wyllys disse num discurso inflamado que "os cristãos são doentes e ignorantes". Bom, gostaria que ele fundamentasse essa afirmação contra as milhares de pessoas que vivem uma vida integra espalhadas por todos os cantos do mundo e que jamais cogitaram nenhum mal contra ele, mas que foram ofendidas pelo seu comentário preconceituoso que generalizou os cristãos com base nos poucos (maus) exemplos que ele foi forçado a ver.

Fora isso. Acho de uma tremenda falta de foco e propósito, investir força e tempo para protestar contra o Feliciano e esquecer, por exemplo, o Renan Calheiros e sua ficha podre na presidência do senado. Seguindo o conselho bíblico, "devemos fazer essas coisas sem esquecer aquelas".

Devemos protestar? Sim. Nos mobilizar? Sim. Ir pra rua? Claro! Mas trabalhar pelo correto aqui em baixo, na esfera pessoal, mano a mano, tem um efeito muito mais direto, palpável e duradouro.

Existem grupos trabalhando incansavelmente da maneira correta, e a igreja devia aprender com eles.

Apenas a título de informação e curiosidade, recomendo que conheçam a Fundação Lumos, fundada por J.K. Rowling, autora da Saga Harry Potter, que trabalha pela desinstitucionalização dos órfãos, principalmente no leste europeu, reintegrando-os a famílias e financiando sua reestruturação familiar.

A Joyful Heart Foundation, criada pela atriz Mariska Hargitay, estrela do seriado Law & Order SVU, que trabalha na recuperação de vítimas de estupro e violência doméstica, fornecendo todas as ferramentas para que essas pessoas possam ter sua dignidade de volta e viver em paz na sociedade.

Por fim, gostaria de citar Marina Silva como uma cristã exemplar no cenário público. Percebe-se sua posição em relação ao que acredita em tudo que ela faz, seus princípios e valores permeiam suas atividades, e mesmo assim, ela não é uma fanática antipática e agressiva nos debates exigidos por sua atividade militante.

Certamente existem muitos exemplos mais ao redor do mundo de cristãos e não-cristãos fazendo coisas muito boas e realmente relevantes para o próximo.

Sugiro que sejamos parte dos bons e retiremos nossas expectativas e perspectivas para "longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita", como bem cantou Renato Russo, ou vamos realmente gastar pólvora em chimango.

Juliano G. Leal
MARP/MRM

Status do relacionamento: Misericórdia...

Nos últimos anos a nossa vida foi invadida pelos dispositivos tecnológicos. E essa invasão mal começou. A influência dos gadgets e suas consequências já são percebidas por todos os lados. Algumas, bem negativas.

A febre das redes sociais piorou muito depois que a internet ficou portátil. As pessoas não precisam mais de um computador grudado num canto pra acessar sua vida paralela. Agora ela está disponível on-board, 24/7. E assim, as pessoas começaram a alterar seu comportamento no mundo real, fazendo com que fique cada vez mais semelhante ao virtual, fazendo o oposto do proposto pelas redes sociais que era justamente, publicar na web o que fosse fiel ao real, para estender a experiência...

Uma das coisas mais alarmantes hoje é o tal "status do relacionamento". Mas antes de me deter nele, vamos observar alguns perfis de comportamento, que tornam a situação ainda mais bizarra.


Antigamente para começar a gostar de alguém a gente precisava conhecer esse alguém. Hoje, as pessoas pesquisam o perfil, coletam informações, jogam verde, dão indiretas, sem se comprometer com praticamente nada. Assim, nasceram alguns tipos peculiares como:

Pescador de Ilusões: vasculha perfis que possam se transformar em possíveis relacionamentos.

Ilusionista: cria uma imagem que atraia pessoas para seu perfil.

Pessimista: pragueja na rede a sua má sorte no amor, para tentar conquistar alguém que sinta pena dele.

Conquistador: narra seus "sucessos" na busca de admiradores.

Autoconfiante: não para de fazer elogios a si mesmo, às vezes intercalando com piadas para não parecer convencido. 

Fatalista: implora por atenção e por carinho pois tudo ao seu redor está por um fio, a humanidade está se extinguindo, o tempo está acabando, precisamos agir...

Otimista: ele vai ser perfeito e realizar todos os seus sonhos. (SQN...)

Fanfarrão: debocha de tudo, na esperança de atrair seus iguais.

Difícil: também conhecidos como "fazidos".

Desafiador: provoca e às vezes perturba, só pra puxar assunto.

Meigo: artificialmente doce...

Santo: parece que caiu do céu...

E tem muitos mais, apenas ilustrei os tipos mais comuns. E isso vale para eles e para elas. A rede tá lotada desses e de outros. É claro que essas figuras também aparecem fora da web, mas esses comportamentos quando virtuais, trazem alguns desdobramentos catastróficos.

O exemplo mais comum é o da pessoa que não corresponde à imagem virtual. Mas também temos os casos das pessoas que não sabem ter um relacionamento fora do virtual. Na internet chovem declarações de amor. Já ao vivo, não tem assunto, não tem carinho, não tem afinidade, não tem nada. Um iceberg demonstrou mais atitude rasgando o Titanic, do que eles...

Outros, assumem um relacionamento para orgulhosamente ostentar uma mera atualização que publicará para seus contatos (concorrentes?) que "derp está em um relacionamento sério com derpina". E só. Me faz crer que alguns devem até ter um contrato de uso da imagem. Aliás, já existem sites que alugam pessoas por tempo pré determinado só pra preencher o status.

Tem casos inclusive, onde o amor transborda para todos os lados. Quando você vê os dois é puro love. E a gente começa a acreditar que o lance de relacionamento sério é sério mesmo. Aí, no dia seguinte, as pessoas tão de love de novo, só que com outras pessoas! Mas o status segue firme e forte lá no perfil...

Dá dó de ver os casos em que as fotos mostram mais o que um dos dois conseguiu com a relação (casa linda em Gringo Beach, auto-hepatite-móvel da hora, roupinha cara presenteada no dia dos namorados), do que momentos dignos de recordação mútua.

Tem ainda os que ficam fazendo piada de si mesmos, postando fotos de "forever alone", dizendo que estão à espera de um milagre, ou que são encalhadas como baleias, ou o pseudo-santo "escolhi esperar", que muitas vezes não é escolha coisa nenhuma, é uma postagem pra galera parar de botar pressão e não encher mais o saco!

Não vou nem comentar os relacionamentos "enrolados" e "abertos". Por favor...

Vocês já devem ter sacado meu ponto. Não vou alongar nos exemplos. Uma refletida aí e você deve lembrar um monte...

Estamos presenciando um esvaziamento dos relacionamentos. A conversa de que o "ter" está tomando o lugar do "ser", já era. O "ser" já quase nem existe mais. E agora tá se tornando motivo de xingamento criticar o "ter".

Nessa drenagem progressiva dos valores emocionais autênticos, a amizade verdadeira com os benefícios corretos e limpos de antigamente, também está desaparecendo, para dar lugar à uma forma moderna de prostituição sem dinheiro, apelidada de amizade colorida.

Precisamos nos perguntar pra quê queremos ter um relacionamento. Preciso realmente disso? Se sim, estou disposta a ter um amigo antes de ter um namorado? Estou disposto a conhecer o ambiente, a família, os outros amigos dela antes de namorar? Quero conviver com essa pessoa e com todas as que vem de brinde por um bom tempo e talvez pelo resto da vida?

Será que posso dizer "eu te amo" para alguém? Será que eu sei o que isso realmente significa? Será que alguma vez eu já parei pra pensar seriamente no assunto? Será que eu já parei pra pensar sobre qualquer assunto? Será que eu sei pensar?

Vale a pena o mico de encher a rede social com juras vazias que eu vou ter um trabalhão pra apagar depois? É realmente necessário nos expormos dessa forma? É honesto, justo, puro, há louvor nisso?

E o meu relacionamento com Jesus, como vai? E pra piorar, o que eu farei se eu digo que meu relacionamento com o Senhor é bom e meu comportamento é disso ali em cima pra pior? Será que é tão problemático assim ser hipócrita? Será que é tão ruim assim ser mentiroso? Será que alguém se importa por eu ser canalha? Será que alguém pode se machucar por eu ser completamente irresponsável?

Não comece um relacionamento com alguém por nenhum motivo que não seja afinidade desenvolvida pelo tempo de convivência e decisão mútua inteligente. E não mantenha relacionamento nenhum que tenha começado por motivos levianos e inconsequentes.

Se você tem conseguido desenvolver um relacionamento saudável, real, correto, não há nada de errado em compartilhar seus bons momentos nas redes sociais.
Agora, se você tá querendo começar um rolo nos moldes de hoje, é furada. Seria melhor ficar sozinho.

Tome uma atitude na direção da santidade e pare de se preocupar com o status do relacionamento e se preocupe com o relacionamento em si. Sua sanidade e a humanidade agradecem. E o Senhor é glorificado.


Juliano G. Leal
MARP/MRM


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