O Milagre da Serendipidade

Purim...
Será que conseguimos ver o Senhor fazendo as coisas cooperarem para o nosso bem, mesmo quando a situação é insana?
Será que temos capacidade de pensar com lucidez e lógica nos momentos do mais absoluto pânico?
Será que temos condições de tomar decisões quando nossa vida está em risco e as chances não estão à nosso favor?

Antes de respondermos essas perguntas, quero explicar para quem nunca ouviu a palavra serendipidade, o que ela significa. Dizemos que a serendipidade se manifesta quando uma série de eventos aparentemente distintos e não planejados, corroboram para um desfecho não esperado ou sequer imaginado, mas completamente perfeito, trazendo as melhores soluções para os problemas, ou resultados impressionantes em situações, ou ainda eventos em si irrelevantes culminando num último evento completamente diferente de todos mas positivo, construtivo ou revolucionário por si só.

É diferente da coincidência na medida em que nesta, as pessoas ficam felizes por já estarem esperando ou desejando algo naquele sentido que "felizmente acontece".

Adiante.

Nossas perguntas vão encontrar pessoas cuja experiência nos ajuda a respondê-las no livro de Ester.

Nos conta a história que o Rei Assuero (Xerxes) deu uma festa megalomaníaca no reino da Pérsia que se estenderia por seis meses. No final da festa, Assuero deu um banquete por sete dias e convidou a sua rainha para estar presente. Ele desejava exibir a rainha como já exibira o reino. Mas a rainha Vasti, não foi.
"Aconteceu" de a rainha não ir ao banquete...

Enfurecido com ela Assuero se separa e decreta o banimento de Vasti para servir de exemplo às mulheres do reino, para que elas não tivessem coragem de envergonhar o marido diante dos seus convidados como a ex-rainha ousou fazer. Por sugestão dos sábios do reino, foram procuradas e selecionadas as mais belas moças de todas as províncias do reino para receberem tratamento de beleza no harém do rei, com o intuito de que o rei escolhesse a melhor de todas para ser sua nova rainha.
"Aconteceu" o primeiro concurso de "miss Pérsia"...

Entre as candidatas estava uma judia órfã chamada Hadassa, cujo nome persa era Ester, prima de Mordecai, criada por ele como sua própria filha. Ela se destacava na sua vizinhança por sua beleza e boas maneiras, e foi inscrita no concurso do rei.
"Aconteceu" de Hadassa ganhar o concurso.

Enquanto Hadassa vivia tranquila sua nova vida de rainha, algumas pessoas não estavam tão contentes quanto ela. Dois oficiais do palácio estavam combinando um atentado contra a vida do rei. Mordecai tinha desenvolvido o hábito de passear perto do palácio para ver Hadassa.
"Aconteceu" de Mordecai ouvir a conversa e denunciar à rainha. Os conspiradores foram enforcados.

Um tempo depois, um alto-funcionário do palácio chamado Haman, foi promovido a um cargo cujo só o rei estava acima, uma espécie de sumo-sátrapa. Numa comunidade mística como a persa, qualquer cargo importante com o tempo começava a ganhar um certo status divino, e era comum que certas autoridades cujo temperamento era especialmente exibicionista, acabarem desejando uma certa veneração acima da média. E Haman gostava dessa bajulação mística, e ficou extremamente enraivecido ao descobrir que Mordecai não se curvava nem dirigia a ele nada além do que a boa educação mandava. Indignado, decidiu estender sua ira contra todos os judeus, não apenas contra Mordecai, persuadindo o rei a lhe dar poder e autonomia para exterminar todos os judeus do reino. Entretanto, por conselho de sua esposa, Haman capricharia um pouco mais com Mordecai, e assim...
"Aconteceu" de Haman mandar construir uma forca especial para matar Mordecai, com mais de vinte metros de altura, para que pudesse ser vista de longe!

Sabendo do decreto de Haman, Hadassa decretou informalmente um jejum de 3 dias para todo o povo, buscando direção do Senhor para o que fariam. Depois desse jejum...
"Aconteceu" de o rei ficar com insônia.

A insônia do rei o fez pedir que seus servos lessem a história recente até que ele pegasse no sono. E a história lida foi o caso de conspiração denunciado por Mordecai. O rei perguntou se Mordecai havia sido recompensado por sua atitude, e foi informado que não. No momento seguinte, o rei pediu para chamar quem estivesse no pátio para conversar sobre o que ele gostaria de fazer para honrar Mordecai.
"Aconteceu" de Haman estar no pátio, pois vinha pedir para enforcar Mordecai.

O rei pediu para Haman sugerir qual honraria se devia dar a alguém que agradou o rei. Haman, convencido de que ele mesmo seria honrado pelo rei, caprichou na sugestão, sonhou alto, viu seus desejos de bajulação atingirem a plenitude!
"Aconteceu" do rei dizer: "Ótima ideia! Agora faça tudo que você sugeriu com Mordecai" e deixar Haman ainda mais furioso!

Mesmo com todas as chances contra si, correndo o risco de ser punida com a morte, Hadassa ousa entrar na presença do rei sem ser convidada, (fazendo o inverso da rainha Vasti, tão errado quanto) para convidá-lo pessoalmente para uma banquete. Sua esperança estava no fato de que se o rei lhe estendesse o cetro, ela viveria. Mas sua coragem não é revelada pelo fato de se arriscar na presença do rei, mas por admitir que iria morrer de um jeito ou de outro. Agindo, poderia adiantar sua morte em alguns dias sendo punida; não agindo, morreria junto com seu povo, pelas mãos de Haman.

E ela decide agir. Advertida por Mordecai que ela poderia ter sido levantada especialmente para esse momento, ela considera sua vida sem valor diante das milhares que estão em risco. Somando sua fé à perseverança de Mordecai, ela se submete ao seu destino e se entrega totalmente a uma luta pela sobrevivência. É o momento de ela demonstrar amor pelo seu povo e provar para si mesma que não é só uma miss, bonita por fora. Mas também uma verdadeira rainha, inteligente e com valores de beleza interior gigantescos.

No banquete, ela desmascara Haman, ganha para o seu povo o direito de se defender, de lutar pela própria vida, pois o decreto de morte não podia ser revogado.

E eles sobrevivem. Numa situação completamente bizarra. Inclusive com Haman sendo enforcado na forca que ele mesmo fez!

Observando as coisas que "aconteceram", podemos ver que juntas elas nos mostram que nada foi "por acaso". O milagre estava na serendipidade. As coisas "foram se encaixando".

Alguns rabis dizem que essa serendipidade do livro de Ester somada com o fato do nome do Senhor não aparecer nenhuma vez no livro, "acontece" pra nos mostrar que Ele cuida de nós e "conspira" a nosso favor, mesmo quando não vemos.

Olhando para trás na nossa vida, talvez lembremos de várias circunstâncias em que se manifestou o milagre da serendipidade, e nem percebemos.

As respostas das perguntas do primeiro parágrafo serão sim, com certeza, se estivermos mais atentos às coisas não planejadas do dia a dia e se realmente confiarmos Naquele que disse que estaria conosco todos os dias até a consumação dos séculos.

Quem sabe nem era sua intenção ter lido um blog hoje, e agora "aconteceu" de você descobrir o milagre da serendipidade...

"Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito."  Romanos 8:28

Feliz Purim!

Juliano G. Leal
MARP/MRM

Recomeço

O despertador tocou anunciando uma manhã comum. Ele virou na cama e o espaço ao seu lado estava vazio. Escorregou a mão para cima e para baixo, ainda muito sonolento, sem ter uma verdadeira noção do que estava acontecendo.

Cochilou.

O tempo da soneca acabou, o despertador tocou novamente. Algum dispositivo no seu cérebro conectado à rotina disparou junto com o despertador, derramando em seus nervos o alerta de um possível atraso. Pulou da cama esfregando o rosto e correu para o chuveiro.

Saiu do banho se espreguiçando e chamou:

-Amor!

Foi trazido abruptamente mais uma vez para a realidade.

O buquê presenteado pelos colegas murchava sobre a mesa. As coisas espalhadas pela casa davam um ar morno e estagnado ao ambiente, e na sua mente ecoou a voz do chefe dizendo:

-Tire a semana de folga...

Sua respiração mudou. Seus olhos marejaram. Sentiu-se tontear, mas ao invés de desmaiar, uma dor lancinante, praticamente insuportável, atravessou seu peito. Um choro abafado se derramou copiosamente sobre seu rosto, que se contorcia abusando de toda a capacidade de seus músculos. A boca, aberta, escancarada como se não pudesse comportar o tamanho do grito que desejava dar, não emitia nenhum único som. Atirou-se contra uma parede próxima como se desejasse que esta lhe estendesse os braços para lhe dar colo, e deslisou até tocar o chão, que no momento era onde ele realmente sentia estar.

Houve um soluço. Um gemido. Um engasgo. Um suspiro.

Sobre uma estante ele a viu sorrindo numa fotografia. Lembrou-se do dia em que foi feita. Lembrou do motivo daquele sorriso. Lembrou de porque que a amava tanto. E de repente, paradoxalmente, se flagrou sorrindo, ao lembrar de como ela gostaria que ele estivesse agora.

E se levantou. Com os olhos firmes naquele sorriso percebeu o que era aquela dor toda:

Saudade. Um efeito colateral do amor verdadeiro.

E pensou:

-Muitos devem estar com saudade de mim também. Então, assim como você meu amor, vou providenciar sorrisos que os motivem, caso algum dia eu vá embora de repente como você foi.

Sentiu vontade de sair e voltar a viver. Uma vida que deixasse sua amada orgulhosa.

Abriu a caixa de correio. Lá estava um bilhete carinhoso de uma senhorinha que morava ao lado:

-Sinto muito por sua perda. Estou orando por você. Não fiz uma visita pois quis respeitar seu momento de luto. Se precisar de algo, não exite em me pedir. Que o Senhor Jesus lhe dê conforto nesta hora difícil.

Dobrou o bilhete com carinho. Colocou no bolso. Enxugou uma lagrima que insistia em descer pelo canto do seu olho. Sorriu e disse:

Ele já me deu. Me deu um lindo sorriso, e trouxe a minha memória algo que me deu esperança.

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Em memória dos atingidos pela tragédia em Santa Maria, RS.

Juliano G. Leal
MARP/MRM




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