Recomeço

O despertador tocou anunciando uma manhã comum. Ele virou na cama e o espaço ao seu lado estava vazio. Escorregou a mão para cima e para baixo, ainda muito sonolento, sem ter uma verdadeira noção do que estava acontecendo.

Cochilou.

O tempo da soneca acabou, o despertador tocou novamente. Algum dispositivo no seu cérebro conectado à rotina disparou junto com o despertador, derramando em seus nervos o alerta de um possível atraso. Pulou da cama esfregando o rosto e correu para o chuveiro.

Saiu do banho se espreguiçando e chamou:

-Amor!

Foi trazido abruptamente mais uma vez para a realidade.

O buquê presenteado pelos colegas murchava sobre a mesa. As coisas espalhadas pela casa davam um ar morno e estagnado ao ambiente, e na sua mente ecoou a voz do chefe dizendo:

-Tire a semana de folga...

Sua respiração mudou. Seus olhos marejaram. Sentiu-se tontear, mas ao invés de desmaiar, uma dor lancinante, praticamente insuportável, atravessou seu peito. Um choro abafado se derramou copiosamente sobre seu rosto, que se contorcia abusando de toda a capacidade de seus músculos. A boca, aberta, escancarada como se não pudesse comportar o tamanho do grito que desejava dar, não emitia nenhum único som. Atirou-se contra uma parede próxima como se desejasse que esta lhe estendesse os braços para lhe dar colo, e deslisou até tocar o chão, que no momento era onde ele realmente sentia estar.

Houve um soluço. Um gemido. Um engasgo. Um suspiro.

Sobre uma estante ele a viu sorrindo numa fotografia. Lembrou-se do dia em que foi feita. Lembrou do motivo daquele sorriso. Lembrou de porque que a amava tanto. E de repente, paradoxalmente, se flagrou sorrindo, ao lembrar de como ela gostaria que ele estivesse agora.

E se levantou. Com os olhos firmes naquele sorriso percebeu o que era aquela dor toda:

Saudade. Um efeito colateral do amor verdadeiro.

E pensou:

-Muitos devem estar com saudade de mim também. Então, assim como você meu amor, vou providenciar sorrisos que os motivem, caso algum dia eu vá embora de repente como você foi.

Sentiu vontade de sair e voltar a viver. Uma vida que deixasse sua amada orgulhosa.

Abriu a caixa de correio. Lá estava um bilhete carinhoso de uma senhorinha que morava ao lado:

-Sinto muito por sua perda. Estou orando por você. Não fiz uma visita pois quis respeitar seu momento de luto. Se precisar de algo, não exite em me pedir. Que o Senhor Jesus lhe dê conforto nesta hora difícil.

Dobrou o bilhete com carinho. Colocou no bolso. Enxugou uma lagrima que insistia em descer pelo canto do seu olho. Sorriu e disse:

Ele já me deu. Me deu um lindo sorriso, e trouxe a minha memória algo que me deu esperança.

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Em memória dos atingidos pela tragédia em Santa Maria, RS.

Juliano G. Leal
MARP/MRM


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