Noé

Desde que começaram os rumores sobre a produção do filme inspirado na história do dilúvio, eu me interessei sobre o assunto. Cinéfilo como sou, acompanhei a repercussão nos veículos de comunicação. Elogios, críticas, desde a escolha do elenco até as liberdades do roteiro. E desde o começo uma coisa já era certa: ia dar polêmica.

Quando mexemos num assunto, personagem, etc, que é muito querido de alguém, sempre gera polêmica. Sempre existirá o defensor da perfeição, aquele que não tolera nenhuma variação ou modificação no modo de contar uma história. Sempre existirá o fã radical pra dizer que "o livro é melhor que o filme", que sobrou isso e faltou aquilo. Com a Bíblia não seria diferente.

Antes de irmos mais longe, deixe eu dizer que não estou diminuindo a Escritura. A Bíblia é a Palavra de Deus e isso não está em discussão aqui. A analogia acima é pra ser acolhida pelo outro lado: crentes que se comportam como fanboys.

Isso nos leva ao primeiro ponto que quero abordar aqui.

UM PROBLEMA DE COMPREENSÃO DA NARRATIVA

A maioria das pessoas que tem ido ao cinema têm um baita problema. O mesmo problema que temos visto transbordar nas redes sociais, fóruns, notícias e blogs. Não conseguem interpretar um texto.
Isso está tão forte e tão evidente, que não é raro lermos um comentário que não tem nada a ver com o artigo comentado! Diariamente proliferam listas enormes de comentários e respostas com gente brigando e se ofendendo quase sempre sem motivo. Tudo por não terem entendido direito o que foi dito e basearem suas violentas respostas na sua interpretação (normalmente apressada e superficial).

Aí, vamos pro ditado popular, que quando alguém não entende uma explicação pergunta: "quer que eu desenhe?". Bom, o filme "Noé" foi "desenhado" de acordo com a interpretação que o diretor e o roteirista fizeram da história do dilúvio, que caso você não saiba, não está apenas na Bíblia, mas em diversos manuscritos de quase todas as culturas antigas da humanidade.

É óbvio que o filme não fará sentido algum para aquelas pessoas que conhecem apenas a versão bíblica, cuja narrativa é bem enxuta.

Não estou dizendo que a Bíblia é incompleta ou equivocada. Por enxuta quero dizer resumida, reta, direto ao ponto. O objetivo da narrativa bíblica é conectar os pontos entre a origem da humanidade e o plano de salvação. E cumpre muito bem seu objetivo. Mas no caso da história do dilúvio, não é uma narrativa detalhista.

Talvez alguém argumente que dar as medidas da arca e especificar animais puros e impuros, bem como as idades dos personagens e o tempo das chuvas e as genealogias seja bem detalhista.

Em termos de informação relevante para o contexto a que se destina essa informação, sim. Em termos de narrativa propriamente dita, ou seja, a forma de se estruturar um texto para contar uma história, não.

Uma narrativa detalhista e detalhada, traria as expressões faciais, os pensamentos dos personagens, as cores das roupas, uma precisão impecável sobre o cenário, descrição dos sons, dos cheiros, a quantidade (ainda que aproximada) de pessoas em cada cena. Enfim, elementos que eliminariam as dúvidas ou a necessidade de conjeturar o que poderia ou não estar lá.

Moisés escreve o que acha necessário para entendermos o texto e deixa o resto com a nossa imaginação. Enquanto as nossas conjeturas não distorcem o objetivo da Bíblia, elas são inofensivas.
O filme é por si um método de narrativa hiper-sensorial complexo e detalhista. Quando se parte de uma narrativa escrita para uma visual-auditiva, o modo de se interpretar isso também muda. A quantidade de informação que se absorve em relação ao tempo, muda. Podendo aumentar ou diminuir de acordo com a vontade do narrador.

Em livros detalhistas como as sagas, geralmente diminui, fazendo os fãs reclamarem que faltaram informações. Curiosamente, no caso do Noé, aumentou.

Não acredito que foi intenção do diretor perverter abertamente o ensino da Escritura, mas sim, harmonizar uma narrativa com suas paralelas ao redor do planeta para enriquecer a narrativa hiper-sensorial. Como já mencionei, os demais relatos diluvianos são desconhecidos da maioria, logo, vai "sobrar" muita coisa por aí...

Resumindo, não conhecem a própria Bíblia, muito menos a cultura universal e querem entender o filme a partir de um ponto de vista pessoal e isolado, muitas vezes aprisionado no paradigma de interpretação de uma determinada denominação. Lamento, mas entendimento nesse contexto é quase impossível.

Se você não é o tipo de pessoa que gosta de raciocinar, estudar ou pensar por conta própria, pode parar de ler por aqui mesmo. Fique seguro na sua zona de conforto chamando o filme de heresia e busque outro tipo de filme ou entretenimento. Mas cuidado, talvez você não consiga entender nem os filmes do Smilinguido, afinal a Bíblia não diz que formigas falam, nem estudam...

Outra razão pra parar de ler por aqui é se você ainda não viu o filme, pois agora começam os SPOILERS!

NOÉ, O PECADOR

O filme nos mostra um Noé aflito e perturbado pela realidade assombrosa do efeito do pecado sobre a Terra. O pecado que elimina a bondade e o amor e faz os homens destruírem tudo que os cerca, bem como a si mesmos. Noé então se vê sobrevivendo com sua família, mas reconhece em si mesmo os traços da maldade do pecado e deduz que não adianta ser salvo do dilúvio se o pecado continuará no coração do homem. Assim, o Noé do filme conclui que deve viver até morrer e que seu filho mais jovem será o último humano. E quando este morrer, será o fim da humanidade e consequentemente, o fim do pecado.

Essa sensação se agrava depois do dilúvio, quando já na arca, o Noé experimenta a "culpa do sobrevivente". Já ouviu falar disso? É um trauma psicológico bem comum entre pessoas que passam por acidentes ou catástrofes, principalmente se o sobrevivente crê que entre os mortos havia alguém mais digno de ser salvo do que ele.

A Bíblia diz que Noé era íntegro entre o povo de sua época. A julgar pelo povo da época, era bem complicado ser íntegro. E o fato de ser íntegro não anula nossa humanidade. E convenhamos, sobreviver ao hidroapocalipse não deve ter sido a experiência mais agradável do mundo. Se Jesus sofreu no Getsêmani ao ponto de suar sangue antes de cumprir sua missão, por que Noé não pode ser retratado no cinema tendo algumas crises existenciais?

Mas a maior polêmica em torno das crises do Noé está na cena em que ele tenta matar as netas gêmeas recém nascidas. A motivação dele é acabar com o pecado através da extinção da raça humana, mas muda de ideia. Na minha opinião, a mensagem do filme nessa cena foi, que da mesma forma que pelo livre-arbítrio o pecado entrou no mundo, pelo livre-arbítrio o homem passaria a lutar contra o pecado, escolhendo amar e obedecer a Deus. O que me confirma que foi essa a intenção do filme acontece no final, quando o halo-iris aparece no céu, como sinal da aliança, no mesmo instante em que Noé abençoa sua família.

Outro ponto a ser destacado aqui e que o filme não mostra, é o episódio em que a Bíblia narra Noé amaldiçoando o neto porque seu filho Cam o viu nu depois de um porre. Tem certeza, que supor que uma pessoa assim poderia ter ameaçado as netas, é uma grande heresia? Eu diria que o diretor só trocou a atitude de situação...

A Bíblia é um dos únicos (se não for o único) livro sagrado da humanidade que mostra as falhas de caráter de seus personagens, justamente para enfatizar que o homem é pecador e que Deus nos ama e nos escolhe para executar Suas missões assim mesmo. Mas se o cinema evidencia isso, é heresia né? Por favor...

CAMPEONATO DE HERESIAS: NOÉ vs IGREJAS

Agora a coisa vai abaixo. Quem será o vencedor?

Algo mostrado no filme e que fez os fariseus rasgarem as vestes, foram os gigantes de pedra. Um folheto virtual que circula pela internet afirma veementemente: "não havia gigantes de pedra".

Uhm, é mesmo?

A Bíblia não diz que tinha. Nem que não tinha. Mas no filme houveram duas "descidas" de anjos para a terra. A primeira, foi a queda que todos conhecemos, que nos deu a serpente e provocou a queda do homem. Os gigantes de pedra do filme são uma adaptação da teoria dos Alienígenas do Passado (Ancient Aliens). Esses anjos da segunda descida não caíram, eles desceram porque quiseram ajudar o homem contra os primeiros anjos caídos. E não foram petrificados por Deus, mas pelo tombo! E depois de ajudar Noé, eles são redimidos de forma completamente independente, de modo que a aparição deles não interfere em nada na ordem Bíblica das coisas. Eles entram e saem da história sem maiores desdobramentos.

"Ah mas eles ajudam a guerrear contra o Tubalcain e isso não tá na Bíblia..."

A lágrima caindo do olho de Deus na Paixão do Cristo do Mel Gibson também não tá, e a crentaiada se emociona com a cena até hoje. É a mesma coisa.

Agora as igrejas inundarem a mente das pessoas de doutrinas ridículas como as da teologia da prosperidade não tem problema? Francamente...

A pele de cobra também causou estranheza na gospelândia. Não devia. Afinal, pra um povo que tá acostumado a usar pinduricalhos não bíblicos por todo o corpo, deveria ser normal. Eu vi naquele couro de cobra uma alusão aos filactérios de Deuteronômio 6. Um lembrete daquilo que aconteceu e um chamado a tomar posição. Algumas pessoas acharam que a pele de cobra tinha poderes. Na verdade, sempre que algo relacionado ao poder de Deus aparece surge um brilho dourado.
O filme também mostra que a serpente deixou sua forma original para tentar o homem, abandonando o couro, ou seja, aquilo que Deus tinha feito. A própria serpente se desnudou antes de depenar o homem.

Mas você vai dizer que isso não está claro no filme e que é apenas a minha opinião.

Eu vejo aquilo que posso aproveitar como ferramenta evangelística. Mas eu vejo jeitos de evangelizar em qualquer filme, nesse muito mais.

Matusalém foi comparado por alguns com o Mestre dos Magos do desenho "Caverna do Dragão", tanto pelos poderes quanto pela aparência. hehehe
Incrivelmente, ele nem foi tão criticado como imaginei que seria, apesar de tudo que o filme diz sobre ele vir direto do Livro de Enoque. Aliás, várias outras coisas, como os nomes dos Guardiões e a maneira como a criação é ilustrada.

Mas as igrejas tão cheias de curandeiros falando em nome de Deus, então pra quê incomodar "o avô"? Pelo menos nesse ponto o silêncio dos pastores dá coerência ao discurso...

Ainda sobre a criação, quem leu o Enumah Elish, a epopeia Suméria da criação, viu no filme uma versão linda e espetacular de uma das narrativas que mais se assemelha à bíblica, só é mais detalhada. Também é muito bonito o efeito dos seres vivos sendo criados, apesar de algumas pessoas terem surtado por enxergarem uma tentativa de combinar evolução com criação. Sinceramente, não muda nada naquilo que cremos e ficou muito legal.

Cam ir embora sozinho abre margem pra uma sequência. Quem sabe ele encontra um ser sobrenatural feminino de uma lenda judaica e espalha uma raça mutante sobre a terra pra que os nossos líderes ultra-conservadores surtem definitivamente? Brincadeirinha malvada minha...

Na verdade não precisa. X-Men - Dias de Um Futuro Esquecido tá chegando com mutantes de sobra...
Ainda sobre mutantes, os nefilins não aparecem no filme.

Também xingaram o filme por retratar Noé mais como um militante do Greenpeace do que como um "santo homem de Deus". Eu arrisco dizer que Deus prefere ambientalistas a certos "homens de deus" dos nossos dias...

COISAS BOAS

A família do Noé faz um incenso que acalma os bichos dentro da arca (uma clara alusão a adoração do templo), trazendo paz ao ambiente.

Para convencer os que não creem no Noé, uma fonte brota no seco e se transforma num rio que corre por toda a Terra. E por onde o rio passa, a vida renasce. E os seres que bebem do rio sabem exatamente pra onde ir. Eles internalizam o caminho da salvação, o caminho da arca.

Matusalém morre no dilúvio. De acordo com a cronologia bíblica é provável que isso realmente tenha acontecido. A cena ilustra o avô como uma pessoa fiel e confiante, ciente do dever cumprido.

Sem é retratado como um filho que tem uma luta interior por agir da mesma maneira que o pai agiu para proteger sua família, precisando usar o exemplo do pai contra o próprio pai. Mas no fim, tudo se ajusta.

Tubalcain é um autoproclamado rei que só se importa com o prazer e consigo mesmo. A Bíblia o descreve como pai das armas. No filme ele é o pai de todas mesmo, inclusive as de fogo.

O corvo está lá, a pomba e o ramo de oliveira também. As 8 pessoas que se salvam também, apesar das controvérsias e da forma como foram retratadas. A aliança do Criador com a humanidade no halo-íris. Halo, pois é completo e não apenas um arco.

Noé avisa sobre o dilúvio, mas não oferece chance de salvação pra ninguém. Isso é exatamente o que diz a Bíblia (novo testamento inclusive), mesmo que alguns pregadores afirmem o contrário.

Numa rápida conversa com Matusalém, Noé menciona o juízo do Criador, e o avô comenta que "finalmente o fogo virá sobre a Terra". Noé corrige e diz "água, Ele disse água". Matusalém replica, "meu pai tinha dito que seria fogo". Ao que Noé arremata: "água lava, purifica. Fogo consome. Não vai acabar, vai recomeçar."

CONCLUSÃO

Há realmente várias liberdades artísticas e lacunas da narrativa bíblica preenchidas com textos da mitologia universal. Para alguém que busca a sabedoria do alto com humildade e simplicidade, não chega a ser assustador. Mas para os conspiracionistas de plantão que sempre veem o copo metade vazio, tudo é heresia.

Lembre do que Jesus disse:

Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz.
Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são!

Mateus 6:22-23

O que vejo com tristeza nos dias de hoje é que cada vez mais aumenta o número de pessoas que precisam demolir o que os outros ergueram para terem notoriedade. Como nos dias de Noé, as pessoas estão cada vez mais violentas, agressivas em suas palavras, sem respeito pelo diferente, sem ética e sem amor.

Caminhamos para um momento da história que, ao que parece, será pautado no extremismo e nas justificativas fúteis para se perpetrar todo tipo de atrocidade. Existem muitos Noés por aí, procurando servir o Senhor com todas as imperfeições que o ser humano tem, sejam elas bíblicas ou cinematográficas.

Mas também existem os Tubalcains que deixam o do cinema no chinelo, prontos para se aproveitar do trabalho dos que se santificam para desfrutarem apenas da "parte boa".

Que o Senhor nos dê discernimento e não nos deixe perder o bom humor, e as oportunidades de vermos a beleza das coisas, num mundo que já está suficientemente feio.


Juliano G. Leal
MARP

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