Coisas que aprendi na igreja - Parte II

Era um belo domingo ensolarado e agradável. Não lembro a data, mas pelas imagens na memória do vento nas árvores e flores nos canteiros das ruas, devia ser primavera. O culto mensal de comunhão transcorria numa boa. Esse culto é aquele que os membros "atarefados" costumam frequentar. É quando também deixam seus dízimos gordos na caixa de coleta, evitando visitas pastorais desnecessárias e questionamentos sobre o fato de só virem uma vez por mês à igreja.

Nessas reuniões, uma grande atmosfera de "zelo além do normal" tomava conta dos diáconos. Coisas que eram contornadas com facilidade nas outras reuniões, em outros dias ou horários, nesse viravam verdadeiros sacrilégios, blasfêmia pura, só porque "hoje é Santa Ceia".

E ninguém avisou um rapaz maltrapilho e doente que esse era o dia dos ricos e poderosos frequentarem seu "santuário".

Eu estava indo ao banheiro quando vi um rebuliço na portaria e fui ver o que era. Demorei pra entender o que estava acontecendo, e me deparei com um paredão de cinco diáconos impedindo um rapaz de se expressar, se mover ou qualquer outra coisa. Só se ouviam frases do tipo: "Tá bêbado", "tá endemoninhado", "capaz que vai entrar desse jeito, fedendo, na Ceia", "chama a Brigada, a Ronda Social..."

Perguntei para uma irmã que estava atrás de uma mesa enorme abarrotada de doações de alimentos se não havia um jeito de dar umas roupas pra ele, um banho, uma comida. Ela fez uma cara de "gato de botas do Shrek" e não me respondeu.

De repente surge uma Luz vinda do céu e derruba todos! Bem que eu gostaria, mas não. O rapaz foi embora, chorando e praguejando. Uns meses depois fui descobrir, circulando pela vizinhança, que o rapaz era gago e tinha dificuldades motoras por problemas no parto, e  que morava bem perto da igreja. Ele nunca mais voltou.

Na igreja eu aprendi que quando o dinheiro já nos colocou numa zona de conforto, não importa o que aconteça permaneceremos nela, porque não queremos sair. Mesmo que isso signifique jogar Mateus 25 e correlatos na lata do lixo. Afinal, Deus é misericordioso ad infinitum.

Naquela manhã, todos aqueles carrascos da ditadura da beleza, limpeza e riqueza, tomaram e serviram a Ceia. Eu não consegui tomar Ceia com eles. Nunca mais.

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