Coisas que aprendi na igreja - Parte VI

Como sempre faço, vou lembrar que a intenção dessa série é refletir sobre os nossos vacilos e evitar repetir os mesmos erros do passado. As pessoas burras erram e seguem no erro. As inteligentes aprendem com os seus erros e tentam não repetí-los. As sábias observam os erros dos outros e os evitam. Ao escrever, estou tentando ser inteligente; para que quem vai ler, tente ser sábio.

Certa vez, ouvi um debate acalorado sobre seitas em que dois nobres irmãos, discutiam com muita veemência os "absurdos" que este ou aquele grupo cometia; e pelo qual eles o caracterizavam como seita.

Com expressões de espanto, com os olhos muito arregalados, eles conversavam como se estivessem estudando venenos num laboratório. Foi quando eu ouvi uma das pérolas deles:

"Mas eles são uma seita descarada! Ficam aí obrigando as pessoas a guardar o sábado. Onde já se viu crente guardar o sábado. O dia do Senhor é o domingo! Quando Constantino se converteu, ele declarou o Senhor Jesus como Senhor e instituiu o domingo como dia oficial de adoração dos cristãos! O sábado é coisa de judeu, coisa da velha aliança."

Ao que o colega respondeu:

"Mas é isso que eles querem! Voltar pro tacão da lei! São todos judaizantes disfarçados. E tão enganando um monte de gente, viu irmão? Outro dia, um vizinho meu foi na igreja deles e voltou todo empolgadinho..."

"É o sinal dos tempos, irmão! Apostasia! As pessoas estão cegas, vão atrás de tudo que inventam. Não podem ver uma novidade que já correm atrás..."

Essa conversa aconteceu na frente da igreja um pouco antes de um culto começar. Quando a maior parte das pessoas já havia entrado e eles perceberam que o culto ia começar, entraram também. Davam risadinhas e faziam piadas ainda dentro do tema que os interessava tanto.

Me cumprimentaram, "entre o pórtico e o altar", e como o assunto passou a ser meu bem estar, eles se esqueceram por um breve momento seu assunto anterior. Mas eu não. E emendei:

"Irmãos, esses cultos tem sido uma benção, não é verdade?"

"Glória a Deus, aleluia, maravilha, fogo santo de Deus!"

"Os irmãos pretendem vir na campanha das sete sextas-feiras de vitória que vão começar na próxima sexta?"

"Claro, vai ser um milagre atrás do outro..."

"Ahhh, mém. Tomara, né irmãos, tomara..."

Naquele dia eu vi que só o que os outros inventavam era errado. Se um outro grupo diferente do nosso, fazia uma coisa diferente era heresia. Se era na nossa igreja era "visão que Deus deu", era "uma idéia criativa", era "uma nova unção". Eta hipocrisia braba!

Fora que ter um calhamaço de bulas, editais, doutrinas, regras, leis, normas, circulares, recomendações conciliares, era só "costume". Muita, mas muita coisa mesmo dentro desses compêndios era pior do que guardar o sábado (proibir a ordenação feminina, por exemplo).

Mas a coisa ainda ia além. Beirava o ridículo. Essa ou aquela pessoa que era de outra denominação cristã, mas com alguns "costumes" diferentes, era considerado um pecador em estado terminal. Se fosse pobre, pior ainda. Todo pobre era automaticamente burro. E na igreja, quase sempre, era visto como ladrão e tarado.

Já se fosse um rico, com diploma acadêmico, com carro importado, com um bom papo e um sorriso cativante, tipo, um médico bem sucedido ou um advogado, ou quem sabe até um político, conseguia até pregar no culto mais importante da igreja. Ah, e o fato de ser maçon ou pedófilo era um detalhe ínfimo e irrelevante, afinal, estava ali o "doutor fulano de tal".

O Zé Guedé e a Joana Banana tinham que fazer quilos de cursos, passar por exames, provas, até assumir um cargo ou função. Os que tinham dê-érre na frente do nome, não precisavam nem ter Bíblia, que dirá conhecê-la.

Depois, era com base nas pregações rasas de gente sem o mínimo respaldo da Palavra, que surgiam aquelas grandes questões do jeito que eu narrei no início.

Mais tarde descobri que o pastor não gostava muito de dividir o púlpito com esses doutores todos, mas a confissão dele foi mais aterradora ainda:

"Fulano é chato mesmo. Não sabe nada e quando vem não diz coisa com coisa. Mas não posso perder ele. O dízimo dele praticamente paga todas nossas contas!"

Isso é pecado. É uma tolerância que rompeu os limites do razoável, da ética e do bom senso.

Ao avaliar um determinado grupo, lembre desses casos e se pergunte:

Onde estão os verdadeiros Hereges?

Juliano Leal - MRM/MARP

Leia todas, do I ao V.

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