Porque algumas igrejas tem medo do Harry Potter



Comecei a observar o comportamento de certos líderes e ministros diante dos livros e filmes da J.K. Rowling e percebi algo estarrecedor:
Enquanto uns estão realmente querendo preservar suas crianças de uma superexposição desnecessária ao mundo da bruxaria, outros tem um motivo bem mais pífio e cafajeste: rabo preso!
Ao assistirem os filmes ou lerem os livros, as crianças e jovens de algumas igrejas estão percebendo que sua comunidade (e até a denominação inteira) são iguais a Hogwarts - e que seus líderes são réplicas fiéis dos Aliados de Lord Voldemort, os Comensais da Morte.

Tenho visto que vários pastores são dignos de irem para a prisão de Azkaban, pois são piores que os bruxos e os dementadores do filme. Aliás, eu já convivi com pastores e líderes que costumam dementar suas ovelhas, sugando toda a felicidade delas, até vê-las morrer de tristeza e depressão.

E é obvio que eles não querem que essa associação de imagem aconteça! Eles não querem que suas ovelhas descubram que eles usam "magia branca"! Não querem que elas identifiquem as mandingas e as supertições que vieram direto do Paganismo Greco-Romano.
Eles também não querem que os jovens vejam que eles comemoram várias festas não-bíblicas exatamente como prescreve o ritual bruxo. Que várias tradições do mundo bruxo ilustrado em Harry Potter, são parte essencial da liturgia deles.

E porque eles fazem isso? Simples, eles não são "trouxas". Eles dominam as artes mágicas que insistem em chamar de tradição. E acredito que muitos deles tem ciúme dos bruxos por poderem praticar sua magia abertamente sem o disfarce gospel.
E eu não estou falando de satanistas infiltrados dentro das igrejas para destruí-las, como tem sido alardeado ultimamente. Até porque, se os "satanistas" fazem realmente isso, me pergunto seriamente se eles tem necessidade de empenhar um esforço tão grande desses em lugares que já conseguem se detonar sem eles e que são mais diabólicos que muitos lugares "do mal".

Sim, caro leitor, os jovens, adolescentes e crianças estão descortinando um mundo novo através das páginas e das cenas de Harry Potter. E não é o da magia de Hogwarts. É o da hipocrisia da igreja. E não adianta dizer que os vilões foram magistralmente esculpidos para se assemelharem aos líderes cristãos porque isso é uma falácia. Pra vexame geral da cristandade, os valores éticos e morais da história dos bruxinhos vieram direto da Bíblia, que é inclusive citada e praticada na trama. Ah, só pra constar, Harry Potter foi até banido de vários países islâmicos por ser "demasiadamente cristão".
O que farão os nossos estimados líderes quando perceberem que aqueles que eles mais atacam são mais limpos em termos morais do que eles próprios? Sem esticar muito para outro lado: é o mesmo motivo que desabona muitos líderes cristãos, principalmente evangélicos, de criticarem ou denunciarem os políticos corruptos, quando fazem a mesma coisa.

É comum um escritor se utilizar de conceitos e linguagens distantes da sua cultura, do seu meio, para enriquecer o enredo e trazer uma amplitude, uma abrangência maior, um outro ponto de vista ao que está escrevendo. Falar de órfãos, de bruxaria e de criaturas mágicas na Inglaterra é tão lugar comum quanto falar de favela, futebol e carnaval no Brasil. Qualquer brasileiro sabe o que é um drible, sabe diferenciar uma cuíca de um pandeiro. Eles lá, sabem diferenciar uma varinha mágica de um outro galho qualquer. Eles estão habituados a perguntar "quem vem para a reunião de pais" ao invés de "seu pai vem à reunião", pois depois das guerras, se tornou normal não ter pais na Europa. Buscar elementos bíblicos e fazer os personagens falarem suas conjurações em latim, trazia uma nova cultura pra eles.

Em alguns lugares eu até acredito que houve um resgate do sincretismo católico já disseminado na Europa Medieval. Um dos ramos mais fortes da Wicca, cultua a Deusa-Mãe em todas as suas variantes, nuances e detalhes. O culto à virgem Maria é idêntico a esse rito, sendo inclusive aceito em muitos covens da Wicca que os praticantes se dirijam à Deusa como Maria, enquanto outros a chamam de Diana, Ísis, Ishtar, Gaia, Mãe Lua ou Lilith. O "cristianismo" que os druidas conheceram era esse: que batia no liquidificador e engolia as crenças dos povos locais e os deixava em paz se eles usassem uma terminologia cristã e parassem com os rituais que a "igreja" considerava "estranhos". E quando eles não paravam, eram queimados vivos pela Inquisição.
Os valores originais da Bíblia são novidade para esse povo, pois quando o cristianismo chegou na Europa oceânica, já era uma bagunça made in Roma. E não me venha com história de avivamento inglês e essas coisas. Se tivesse sido suficiente, não estaríamos com a coisa nesse pé. Os frutos que estamos vendo mostram que a raiz da árvore nunca mudou.

E a igreja, por sua vez, continua matando praga com petelecos. E não me entenda mal, por praga me refiro à mistura de crenças que descaracteriza ambas. E só favorece os espertalhões que querem levar vantagem. A planta está morrendo e nós estamos colocando paliativos. Pra variar, estamos escondendo o problema verdadeiro debaixo da nossa camuflagem religiosa. Mas essa capa de invisibilidade é de camelô, não vai funcionar pra sempre. Deus tem levantado pessoas que estão dispostas a viver uma vida sem hipocrisia, sem falsidade, sem subterfúgios. Que conhecem e vivenciam as características de uma vida abundante. Cuja fé e esperança não estão nos ritos ou nas tradições, mas na Verdade e na Eficácia da Palavra.
As máscaras estão caindo. Os que fizerem sua escolha, seja qual for, e forem autênticos, honestos, terão mais sucesso do que os hipócritas, pois vai chegar a hora de prestar contas. Seja aqui ou no Grande Dia.

Fica aqui uma frase do mago diretor de Hogwarts, Alvo Dumbledore:

"Vai chegar a hora em que teremos que escolher entre o que é certo e o que é fácil."

E uma que um cristão deveria conhecer:

"Onde estiver o cadáver, ali se ajuntarão os abutres."

Quem lê, entenda.

Juliano G. Leal
MRM/MARP

Postagens mais visitadas deste blog

Pólvora em Chimango

Sacrifício Diário

Noé