Como começam as oferendas

Maurinho era um menino esperto e muito querido por todos, que nasceu numa família de 12 irmãos. Como eram muitos irmãos, alguns eram bem mais velhos que outros. A diferença de idade ajudava no orçamento da casa.

Pelo fato de serem muitos irmãos, existiam muitos gostos diferentes. Alguns amavam a comida da mamãe, outros comiam desejando se ver livre da casa e da vida 'pobre' que os pais proporcionavam. Uns amavam os bichos que eram criados, outros não suportavam a ideia de serem considerados 'colonos'. Por isso, alguns que começaram a trabalhar, e, por estarem trabalhando, sentiram-se no direito de ter certas regalias, certos privilégios. Não comiam mais o pão da mamãe, nem a manteiga feita com o leite da vaca da família. Uns até arrumaram emprego que oferecia moradia, para poderem ficar o mais longe possível do estigma. E da família.

Já outros decidiram que fariam algo para melhorar a vida dos mais novos, para que eles não precisassem passar pelas mesmas dificuldades e traumas. Tentaram, dentro de suas limitações. Mas não abriram mão de ter alguma 'vantagem' por serem os 'provedores'. Aí entra o Maurinho.
Por não ser o mais novo, nem o mais velho, Maurinho era o faz tudo da casa. Se tinha que cuidar dos mais novos, lá estava ele. Se tinha que fazer algo pelos mais velhos, Maurinho fazia. Só que Maurinho era criança também, inocente e brincalhão.

Por isso, quando uma das irmãs mais velhas, uma que não queria mais o pão da mamãe, mandou Maurinho comprar um pão d'água, tipo baguete, pão comum na época, ele foi alegre e saltitante. Só havia um problema: ele sabia que só poderia comprar, não comer, porque como era a irmã que pagava, ela comia sozinha. Era uma das 'vantagens' de ser provedora do próprio alimento. Ainda que isso gerasse olhares pedintes e vontades não satisfeitas nos irmãos mais novos. Não importava.

Então, Maurinho, na sua inocência infantil, decidiu comer um pedaço do miolo. Afinal, o formato do pão não mudaria, ele não comeria a casca. Com sorte a irmã nem notaria. Só que o gosto era tão bom, tão agradável, que Maurinho comeu uma porção do miolo, depois mais outra, e mais outra. E como toda criança logo dispersou. Quando a irmã viu, Maurinho estava chegando alegre e saltitante, com todo o braço enfiado dentro do pão. Ninguém mais esqueceu do que aconteceu.

Maurinho levou uma surra sem precedentes. Os irmãos mais novos fugiram e se esconderam de medo. Os mais velhos tiveram que conter a irmã furiosa. E os pais... Quem sabe onde eles estavam naquela hora? Como castigo depois da surra, Maurinho teve que voltar a mercearia e buscar outro pão para a irmã. E ele foi. E retornava para casa, com o sol da tarde de verão e as lágrimas cegando seus olhos, e o som do seus pensamentos e choro ensurdecendo os próprios ouvidos, a tal ponto de não perceber o veículo que se aproximava.

O motorista não teve tempo de freiar nem de desviar. Tudo aconteceu muito rápido. E lá estava Maurinho estirado no chão. Não havia mais o que fazer.

Daquele dia em diante as coisas mudaram na família de Maurinho. A irmã, com a consciência pesada, começou a fazer de tudo pelos irmãos mais novos, gerando adultos mimados, birrentos e mal-agradecidos. E gerando nos que eram maiores, porém não mais velhos do que ela, ciúmes e mágoas, por não terem o que os mais novos estavam ganhado.

Mas uma coisa foi igual para todos: eles nunca mais comeram o miolo de nenhum pão d'água. Nenhum deles toca no assunto. Quando perguntados por alguém que não conhece a história sobre o porquê de estarem tirando o miolo do pão (hoje o pão francês), usam desculpas, como dizer que é a parte do pão que engorda, ou a parte que não fica assada. Mas os que conhecem a história sabem. Eles fazem isso como oferta, em memória ao São Maurinho.

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