O Evangelho Segundo Danny Ocean

Tenho estado afastado das minhas funções corriqueiras para resolver assuntos pessoais, mas como muitos sabem, gosto muito de cinema, música e literatura, e amo quando essas coisas se misturam entre si e quando se tornam veículo de edificação na Verdade. Ou simplesmente, tal como são, nos provocam reflexão por mostrarem facetas do cotidiano que já nos acostumamos a ver e não notamos mais as nuances positivas ou negativas que desenham os detalhes dessas situações e que nos fariam justamente sair da mesmice.

Nessa linha vai a reflexão de hoje. Faz um tempão que queria escrever sobre isso. Depois de me divertir assistindo  o moderno Onze Homens e um Segredo e suas continuações, algumas coisas me saltaram aos olhos. Já na versão original a ideia está presente, mas como nesses novos filmes se pode explorar mais alguns aspectos pessoais dos personagens (caráter, relacionamentos, atitudes em situações diferentes, etc), o que no original é a ideia, nestes passou a ser uma mensagem.


Falo do fato de se estimular a veneração pelo erro como algo bom. Nessa franquia, os heróis são os bandidos! "Mas Ju, tem montes de filmes assim. É o espírito do Robin Hood!" já me disseram. Sim, até certo ponto. O que noto, é que nessa saga a coisa extrapolou muito. E de propósito.

Observe o seguinte. O filme seria um fracasso absoluto se fosse só um remake. Muita gente que gostou do primeiro faria propaganda dele e compararia um com o outro e invariavelmente o segundo fica com o stigma de que quiseram mudar a história, esse diretor quer ser melhor que aquele ou quer pegar carona no sucesso do outro, e por aí vai. Existem muitos remakes, mas a maioria deles não é campeão de bilheteria, vendas ou locações. Mas isso quase não aconteceu nesse caso. Entre muitos motivos, ressalto os que embasam o "de propósito" escrito acima.
  • Um time de atores, direção e produção de primeira linha, extremamente talentosos, aclamados pelo público e pela crítica por seu trabalho.
  • Um apelo diferenciado de marketing baseado no que as pessoas já sabiam do primeiro filme, fazendo com que ele parecesse uma releitura, um segundo olhar de outro ângulo, ao invés de um simples remake.
  • Um apelo direto e aberto à cobiça das pessoas, fazendo que elas se colocassem na pele dos personagens desde os trailers, e o uso massivo de malícia e frases de efeito que fazem o público se sentir cúmplice da quadrilha, o 12º jogador em campo.
Resumindo, o filme é sedutor, dá vontade de assistir e ao assistir, nos tornamos simpáticos ao tema e torcemos pelos vilões. Creio que a principal isca para nossa simpatia sejam As Três Regras de Ocean. Eles seguem sempre três regras: "não ferir ninguém", "não roubar quem não mereça" e "seguir o plano aconteça o que acontecer".

Nosso quadro está pronto. Temos um líder, 10 discípulos, uma regra de ouro (tríplice) e uma missão. E então começa a pregação de 116 minutos na tela, apresentando "O Evangelho Segundo Danny Ocean". 
Porque essa comparação? Porque evangelho? Ora, o cara nos mostra que é possível enriquecer roubando de ricos que não vão ficar pobres, na medida do possível ninguém será ferido e de quebra, tem um grupo disposto a fazer isso debaixo de um rigoroso sistema de disciplina. Esse conceito é uma "boa notícia". Soa revolucionário e desafiador, mas acima de tudo, parece ser extremamente justo. Não era de se duvidar que alguém seguiria esse modelo, adotaria essa doutrina e passaria a vivê-la, ensiná-la e defendê-la.


Hoje, vemos cada vez mais igrejas que se valem de mecanismos estapafúrdios e brechas na legislação para aumentar seu faturamento. Na humilde opinião dos chefões dessas quadrilhas, o que eles fazem é correto pois não transgridem a lei. Também roubam as pessoas descaradamente, dizendo que ninguém vai ficar mais pobre por dar 1 Real de oferta, o que na maioria dos casos é verdade, mas que o saldo final de um culto pra 5000 pessoas que ofertam (e nem sempre só 1 Real), é bem gordo, também é verdade. E do mesmo jeito que o governo nos assalta nos impostos sem devolver nenhum benefício sólido à população, esses mequetrefes com pompa e circunstância gospel fazem o mesmo.

Judas, citando o livro de Enoque, fala da corrupção dos anjos caídos e diz que o Senhor os puniu, e na sequência, demonstra que as pessoas cometem o mesmo erro deles e por esse erro estão se colocando debaixo de juízo idêntico.
Ele começa dizendo que existem alguns que se infiltraram na comunidade e transformaram a Graça do Senhor em libertinagem, pra em seguida compará-los com vários maus exemplos da história bíblica, entre eles os anjos caídos de Enoque capítulo 6. E evidencia no comportamento corrupto que descreve, as regras do Ocean.

  1. Não ferir ninguém: Os infiltrados na comunidade comiam com eles, estavam em todas as reuniões (rochas submersas nas festas), tinham inclinação à luxuria, eram puxa-sacos, murmuradores, egoístas e arrogantes. Pessoas assim não querem ferir (fisicamente) ninguém. São sanguessugas, parasitas. Precisam que a sua vítima esteja bem para que eles se deem bem.
  2. Não roubar quem não merece: Se ampliarmos roubo pra qualquer outro dano provocado pelo comportamento acima (defraudação emocional, que também é roubo), eles também praticavam sem problema essa regra, afinal o critério pra merecimento era absolutamente subjetivo e totalmente tendencioso.
  3. Nunca abandonar um plano: Essa é pra matar. Foi essa regra que me fez lembrar de Enoque e Judas. Em Enoque 6, depois de as Sentinelas decidirem se corromper eles são alertados pelo líder a desistir e sua resposta é: "juramos mutuamente que não mudaremos de ideia, e seguiremos o plano até o fim." E segundo Enoque, essa atitude pesou enormemente na decisão do Senhor de enviar o Dilúvio. Judas corrobora a ideia dizendo que eles pecaram de forma tão grave que ainda aguardam o juízo presos em cadeias eternas.
Se você reconhece em si mesmo traços desse evangelho impuro, deixe isso de lado e comece a buscar em arrependimento a pureza que está na Palavra. Abandone a ideia de que o crime compensa, e que os bandidos são heróis. Reverta seus valores e livre-se das amarras institucionais que favorecem apenas a corrupção e o lucro desonesto. Não seja cúmplice de um sistema explorador inescrupuloso que alguém, algum dia, teve coragem de chamar de igreja. Saia do meio dos moralistas de cueca que atacam o catolicismo medieval pela prática das indulgências e pela cobrança dos sacramentos, e hoje, vendem tudo que podem e ainda tomam o que não podem. E ainda confundem comunhão com subserviência. Submissão com escravidão. Fiel com Fã. Comprometimento com fanatismo idólatra.

Não tente consertar a sua instituição, isso não funcionará a menos que você seja o líder supremo dela. E sei, que infelizmente, os líderes supremos estão tão "nabucodonozorizados" que dificilmente modificarão alguma coisa substancialmente, pois na hora de calcular o preço, verão que é alto, e ficarão se desculpando com textos deslocados e teologias furadas que sustentam seus hábitos. Até chegar o dia em que eles verão as cotações do mercado financeiro através da vitrine de uma loja ou na tv da cadeia, e não mais no seu iPad de dentro de um jato particular.

Somente um plano é digno de ser seguido até o fim, independente do que aconteça no meio da execução dele. O da perseverança no caminho da Salvação em Jesus o Messias.

Faça sua escolha.
Fique com o evangelho de Onze Homens e Um Segredo ou com o Evangelho de Onze Homens e A Verdade.

Juliano G. Leal - MRM/MARP

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