E então, me coloquei no lugar dele, para tentar entender sua dor.

Tudo começou quando eu li Mateus 7.

Me quebrantou como nunca havia acontecido. De repente, devido ao momento em que me encontrava, aquele texto soou completamente diferente. Escandalize-se. Mas em 18 anos de convertido foi a primeira vez que ele foi real. Não que antes disso fosse falso ou não verdadeiro. Sempre cri que era verdadeiro, mas não era aplicável, não era algo que eu pudesse aplicar de forma plena na minha realidade. Talvez tu te perguntes como isso é possível. Na verdade é bem comum pra quem nasce numa igreja. Mesmo depois de uma experiência individual, de uma escolha consciente, de começar a tomar as próprias decisões, a convivência dentro de um ambiente que te protege do mundo te mantém morno, confortável e te leva a apatia. Tu te tornas um crente no piloto automático.

E isso faz com que tua visão e aplicação das escrituras se torne cada vez mais afunilada, desprovida de uma experiência autêntica que comprove, autentique essa fé e esse mover edificador que ela deveria produzir. Os frutos não aparecem, ou se aparecem são minguados e sempre os mesmos. Não existe beleza. Não existe abundância. Não existe variedade. Não existe um fruto digno, apenas o mínimo.

Acontece que esse fruto não alimenta o faminto. E a árvore em pouco tempo tem uma aparência de que vive, mas está morta. Na última florada, os frutos nem sequer aparecem. A árvore simplesmente definha.

Nesse estado de definhamento, os questionamentos que aparecem são um último grito do que existe de bom dentro de nós fazendo um esforço tremendo na direção da vida. Da sobrevivência. A esperança.

E a fé produz perseverança; a perseverança experiência; e a experiência, esperança, já nos dizia Paulo. E produz mesmo. E o amor é derramado em nosso coração pelo Espírito da Santidade. Recomeça em nós um circulo virtuoso. Começamos a ser curados da nossa incredulidade. Somos aquecidos, e ao sentirmos o toque do Senhor, percebemos o quanto estávamos aquém daquilo que Ele desejava para nós. E que achávamos que já estava bom.

Então, percebi o quanto julgava as pessoas, mas cria piamente que não, pois meu conceito de juízo estava totalmente deturpado. Achava eu que não julgar era simplesmente não definir sentença sobre algo ou alguém. Mas o que Jesus disse era muito mais amplo. Ele não tinha dito "vocês não devem julgar", mas sim "não julguem!" Depois, explica os motivos, e o primeiro é nossa própria segurança! Porque seremos medidos e jugados na mesma proporção! Ou seja, quanto mais cruel, mais mesquinho, mais perverso, mais odioso, mais rancoroso, estúpido, inconsequente, arrogante, presunçoso, malicioso, seco e maligno for meu juízo, a contrapartida será idêntica. Simples assim.

E apesar de muita gente discorrer sobre as traves e os ciscos, muitas vezes colocando traves no olho alheio pra se safarem das críticas, e também, a questão das pérolas aos porcos, comumente usado para ser arrogante com o próximo, o que me impactou foi a parte dos pais e filhos. Isso porque imediatamente após o parágrafo que fala dos pais e dos filhos, Ele fala dos falsos profetas. E olhando o contexto, os falsos profetas tem as atitudes exatamente ao contrário das recomendadas aos pais!
Considerando o conceito de discípulo como "filho na fé", percebemos que Jesus coloca nosso semelhante como um membro da família, seja ele convertido ou não!

Eu não trato minhas irmãs de maneira rude. Eu amo elas! E meus filhos, nem se fala! E é exatamente isso que o Senhor afirma: "Se vocês que são maus sabem dar coisas boas aos filhos de vocês, quanto mais o Senhor, o Pai de vocês!"

E logo após, grudado nisso, Ele arremata: "Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas".

Acontece que Ele também afirma que amar o próximo como a si mesmo é igualmente a Lei e os Profetas. Ora, a lógica matemática aplicada aqui diria então que as duas coisas são iguais! Se A=100 e B=100, logo A=B!

E é mesmo. Pois se amo ao meu próximo como a mim mesmo, não prejudicarei o meu próximo porque não faria isso a mim! Logo, aquilo que farei pra ele é apenas o que eu mesmo gostaria de receber. Parece tão simples de entender, né? Não pra quem nunca viu isso na prática. As igrejas tem normas de conduta. Não decidimos o que vamos fazer com base nessas regras simples. Agimos de acordo com a interpretação que algum phd fez dessas regras simples, e obedecemos regulamentos. Temos guias inteiros e manuais imensos de "como". E por causa dos "como" escritos e selados pelas autoridades, normalmente sacrificamos os "por quê", os "quê" e os "pra quê".

O resultado catastrófico é que o "como" nos leva ao fazer viciante. Já que sabemos "como", temos a obrigação de agir logo. Não podemos perder tempo sabendo o por quê, temos que fazer e pronto. Pra quê também não importa, temos um trabalho a fazer. E o quê estão fazendo? Não interessa, o que importa é que será feito! E assim a vida vai ficando amarga.

Viramos robôs na linha de montagem. Não temos mais nenhum raciocínio, apenas repetimos os mesmos movimentos estúpidos que uma doutrina nos programou pra fazer. E então imaginei o que Jesus sentiria se nos visse nesse estado robótico.

"Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela.
Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram".

Largo é fácil. É só fazer. É só ir. Não requer prática nem habilidade. Uma vez encontrado o caminho, deslancha (ou seria desanda), só vai. Não se exige mais nada, exceto a mesmice, a progressão contínua e desvairada da repetição incansável das mesmas atitudes. Eternamente, de forma senil e inconsequente. Cai a chuva, ele vai com a chuva, transbordam os rios, lá se foi novamente. Vem o vento, se torna a própria pandorga, livre, leve e solta.

Estreito exige perícia. Mais do que isso, atenção. Vigilância. Discernimento. Treino. Sabedoria. Conhecimento. Astúcia. Coragem. Fé. Prudência. Ânimo. Paciência.

Quando digo que sou técnico em informática, as pessoas costumam achar que eu fico sentado mexendo em computadores ou no máximo parado numa bancada consertando eles por dentro. Mesmo na bancada, não podemos pegar as peças de qualquer jeito, temos que cuidar a tensão das tomadas pra não queimar peças, temos que eliminar a estática do ambiente, temos que saber minúcias do sistema para poder resolver problemas de programas instalados ou por instalar, saber como combater os vírus.
E as redes? Essa é boa. Passar cabos por porões, forros, paredões de prédios, tubulações apertadas, às vezes entupidas, configurar servidores, configurar impressoras, fazer diferentes sistemas operacionais se entenderem. Configurar roteadores. Saber outro idioma, pois muito do nosso material não existe na nossa língua. E ouvir das pessoas que o nosso serviço é muito "barbadinha".

Isso ocorre pelo simples motivo das pessoas julgarem errado. Vendo de fora, se baseando no que me viram fazer uma ou duas vezes. Por essa razão, acreditam que todo o trabalho é daquele jeito, que sempre se faz do mesmo jeito! Percebem?

E nesse nosso erro de interpretação, dizemos frases do tipo: "Era só isso? Tão rápido! Mas tu nem fez nada, só teclou umas coisinhas e uns cliquezinhos e deu. Acho que nem vou pagar..."
Minha resposta sempre foi: "Bom, então desfaço os cliquezinhos e toquezinhos e deixo como estava, e a senhora mesmo resolve, se é tão simplezinho."

Afirmações robóticas. E minha resposta provocava vergonha imediata. Pois fazia sair do vicio e questionar: "Porquê?" e "Porque não?"
Era o que as respostas de Jesus faziam comigo.
E então, me coloquei no lugar dele, para tentar entender sua dor.
A dor de ver seus amados filhos robotizados pelo pecado. Fazendo tudo por fazer.

Mas o que Ele fez por mim?

Ele fez por mim o que Ele gostaria que eu fizesse por Ele.

Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima.

Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças, contudo nós o consideramos castigado por Deus, por ele atingido e afligido.

Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. 

Todos nós, tal qual ovelhas, nos desviamos, cada um de nós se voltou para o seu próprio caminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós.

Ele foi oprimido e afligido, contudo não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado para o matadouro, e como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a sua boca.

Com julgamento opressivo ele foi levado. E quem pode falar dos seus descendentes? Pois ele foi eliminado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo ele foi golpeado.

Foi-lhe dado um túmulo com os ímpios, e com os ricos em sua morte, embora não tivesse cometido qualquer violência nem houvesse qualquer mentira em sua boca.

E depois de tudo isso, Ele pede que façamos o mesmo pelo nosso semelhante. Já parou pra pensar que antes de Ele fazer isso não havia nenhum salvo? Que quando Ele fez, como diz ali em cima por todos nós, desviados em seus próprios caminhos. Ninguém merecia. Mas Ele não julgou como deveria, dando aquilo que merecíamos. Ele escolheu o amor e a misericórdia e nos deu o quê não merecíamos: a Salvação. De graça.

E hoje? Tu julgas teu semelhante, diminuindo as habilidades dele, diminuindo o esforço dele, colocando defeito no que ele faz ou é para que tu não sejas tão ruim? Para poderes sair por cima? Para te safar de assumir tuas responsabilidades? Teu status de perdido? Tua condição de pecador?

Jesus não precisava fazer isso. Mas Ele escolheu fazer por ti.

E tu, estás disposto a fazê-lo pelo teu semelhante. Pelo descrente? Pelo teu inimigo?

Quando tua resposta a essas perguntas for sim, poderás dizer que és livre.

Até lá, és escravo de teu egoísmo e não tens ideia do que Jesus suportou por ti naquela cruz.

Mas descobrir, só depende de ti. Basta que dê um passo em amor, na direção do teu semelhante.

E faça por ele o que tu gostaria que fizessem por ti.

Ou melhor, o que Ele já fez e consumou.



Juliano G. Leal - MRM/MARP

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