Halloween, um feriado "cristão". - Parte II

Semana passada comecei uma série de 3 mensagens sobre o Halloween. Clique aqui para ler a primeira parte.

A principal motivação da Inquisição não foram as bruxas. O movimento inquisitorial que mais tarde se tornaria o Tribunal do Santo Ofício, foi instituído para combater a seita dos Cátaros que surgiu dentro do catolicismo. Eles eram pacifistas e tinham forte influencia gnóstica na sua doutrina. Criam que o homem só se salva quando se desprende do corpo e que precisava receber um ritual chamado Consolamentum pouco antes de morrer para serem recebidos nas estrelas pelo criador do universo.

Essa ideia de voltar para as estrelas tem eco nas religiões antigas do Egito e da Mesopotâmia, mas apesar de ser pagã, não é bruxaria. E o Consolamentum não lembra uma certa unção dada no momento mais extremo da vida do católico? Tudo isso começou no século XI, e o argumento para combater os Cátaros era de que eles eram sincretistas, bem como grupos minoritários de pessoas que praticavam algumas superstições e sortilégios nos vilarejos remotos da Europa. Mas ainda assim estavam longe de ser bruxaria real.

Apesar de em suas bulas inquisitoriais o Ofício combater o sincretismo, com o surgimento da Reforma Protestante, o papel dele se redesenhou completamente. Uma vez que as teses de Lutero, condenavam entre outras coisas, a veneração de imagens como idolatria, e isso era um símbolo do sincretismo romano legítimo, junto com todo o paganismo e as famigeradas indulgências, o alvo do Ofício passam a ser os reformadores.

(As indulgências, se você lembrar, eram para construção da Basílica de São Pedro, que por acaso, tem uma bela praça com um obelisco egípcio no meio, exatamente no formato da Roda do Ano dos celtas, obedecendo rigorosamente todas as suas subdivisões. Não muito diferente de hoje, quando indulgências são cobradas das pessoas por certos membros do episcopado, para construção de mega-igrejas que obedecem fielmente a arquitetura de lojas maçônicas. Ambos, em ambas as épocas, copiando aquilo que condenam.)

Lutero
Antes de Lutero pregar suas 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg (ironicamente no dia 31 de outubro de 1517), vários outros movimentos já tinham pipocado pela Europa protestando contra inúmeras incoerências da igreja de Roma. Mas foi com Lutero que a coisa esquentou de vez e tomou proporção de revolução. Para rechaçar as ideias luteranas que se espalhavam, nas palavras da igreja Católica "como a peste pela Europa", os papas que já haviam massacrado milhares de pessoas como "responsáveis por trazer a peste por praticarem heresias que atraíam a ira de deus", começaram a perseguir e matar protestantes.

Muitas coisas interessantes aconteceram no periodo que se seguiu. O Ofício precisava frear os protestantes e recentemente Espanha e Portugal tinham revitalizado a esperança política e comercial da Europa com as maravilhas que traziam do Novo Mundo. Enquanto isso, a igreja inglesa se separava de Roma para que seu monarca pudesse casar de novo, e começava a perseguir católicos e obrigá-los a assistir cultos protestantes.
No meio dessa bagunça, é convocado o Concílio de Trento, onde vários argumentos sincretistas como a veneração dos santos, o culto das relíquias e das imagens foram oficializados de fato. Foi nesse concílio que a tradição oral católica ganhou status de igualdade com a Bíblia. E aqui também Tribunal do Santo Ofício ganhou esse nome, e várias ordens e sub-ordens foram criadas para exercerem juízo sobre hereges e heresias, entre elas, a Companhia de Jesus.

Ignácio de Loyola
A Ordem dos Jesuítas existe até hoje. São notáveis pela sua influencia na área da educação, com um complexo sistema de escolas e universidades ligadas ao Vaticano ao redor do mundo. Essa ordem ficou famosa na Contrarreforma por ser cegamente fiel às ordens do papa. Seu fundador, Ignácio de Loyola, chegou a declarar que "Acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da igreja assim o tiver determinado".

Essa dedicação exemplar motivou as demais ordens católicas a capricharem nas suas posturas e atitudes. Quando as perseguições aconteciam, os padres e inquisidores davam a sentença e entregavam o réu para ser punido pelas autoridades civis. Com o sangue virtualmente fora de suas mãos, as piores penas eram as escolhidas. O objetivo principal da severidade, era assustar os demais para que abrissem mão de qualquer prática contrária à da igreja e assim sobrevivessem aos massacres.

Com seus melhores homens na educação, o quadro doutrinário resolvido e as pessoas que atrapalhavam sendo retiradas do caminho, o catolicismo se volta a "evangelização". Entretanto, como os protestantes também estavam fazendo a mesma coisa, os católicos se voltam para a América. E após anos de pregação nasce aqui no Brasil uma das versões mais misturadas do sincretismo.

Na América do Norte, a colonização foi diferente. Foram protestantes puritanos que chegaram às terras novas junto com outros ingleses que traziam na sua bagagem a velha crença dos celtas. Isso foi quase obrigatório, uma vez que ambas as crenças, bem como judeus e muçulmanos, estavam sendo perseguidas na Europa tanto por católicos quanto por protestantes. Lutero inclusive disse que os protestantes "radicais" e os judeus deveriam morrer, aplicando em seus dissidentes exatamente o que aprendeu com seus perseguidores.
(Essa declaração de Lutero sobre os judeus foi um dos argumentos de um certo Adolf para conseguir apoio da igreja da Alemanha para realizar seus intentos.)

Nos países dominados pelos portugueses e espanhóis predominantemente católicos, se desenhava um culto com todos os elementos da igreja de Roma mas carregado do misticismo dos escravos africanos e das crenças animistas dos povos nativos. Já onde a colonização foi francesa e inglesa, houve um comportamento predominantemente protestante, com a particularidade de que a doutrina humanista da valorização do indivíduo, que brotaria mais tarde com força entre os batistas, teria um forte apelo entre os pagãos britânicos.

Ao mesmo tempo que o catolicismo sustentava a monarquia na Europa e tentava mantê-la na América do Sul, os Pioneiros na América do Norte encontraram um sistema de confederação muito bem organizado e funcional dos nativos, um lugar que já respirava democracia e estava prestes a receber milhares de protestantes de vertente congregacional (de origem calvinista, que pregam a descentralização do clero) nos anos que se seguiriam.

Da mesma forma, os herdeiros da velha crença, já tinha uma noção de organização baseada em pequenos grupos com uma ideia sacerdotal forte, mas um hábito de culto e convivência muito mais horizontal do que o clero romano.

Com o passar dos anos, o intercâmbio inevitável de hábitos e costumes de diferentes crenças formou a América como conhecemos hoje. Mas essas foram as bases para todos os outros desdobramentos religiosos do nosso continente.

Nos anos mais recentes, o Druidismo, a Wicca e correntes Neo-Pagãs tem se revitalizado na nos Estados Unidos, ao passo que no Brasil e outros países latino-americanos, as pessoas tem perdido a vergonha de assumirem que pertencem aos cultos afro-brasileiros e às novas filosofias humanistas. Isso colaborou para o surgimento tanto lá, quanto aqui, de igrejas "cristãs" sincretistas.

Isso nos dá o pano de fundo para a terceira e última parte do estudo que será postado na próxima 4ª feira, dia 31, onde analisaremos as influencias da doutrina protestante no capitalismo, a febre religiosa por dinheiro, os aspectos comerciais de todas essas festas religiosas e como o dinheiro é a última ponte.

A relação entre os sacrifícios de fertilidade e a pregação da teologia da prosperidade são o elo que faltava no sincretismo religioso de hoje, que faz do Halloween, assim como outras festas não-bíblicas, um feriado predominantemente "cristão".

Juliano G. Leal
MARP/MRM

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