Coisas Que Aprendi Na Igreja - XX

Este é provavelmente o último "Coisas" que eu estou escrevendo. Essa coluna nasceu com o intuito de refletirmos sobre os erros da Igreja, obedecendo a instrução de Jesus às igrejas do Apocalipse de olharem para seus próprios erros e corrigirem a rota.

Nesses anos de blog e de MARP, essa reflexão fez com que nos distanciássemos dessas posturas analisadas nessa coluna, terminando por nos desligarmos do sistema evangélico institucional. O que escrevemos aqui, era a mesma mensagem por todos os lugares que passamos. Se não há espaço para arrependimento e mudança nas instituições, então também não há espaço para nós nelas. E as deixamos para não sermos cúmplices em seus pecados.

Quando falo de mudança aqui não estou falando de doutrina. Estou falando do básico, de combater fofoca, evitar estrelismo, não permitir corrupção na liderança, usar bem os recursos da comunidade, não privilegiar familiares, etc. Basta reler as 20 postagens que isso ficará evidente.

Hoje, numa última contribuição a partir desse ponto de vista, vou endereçar alguns casos que ainda insistem em se repetir, deixando um rastro de gente ferida pra trás.

Quando eu era líder de jovens, tinha uma mulher na igreja que ficava tentando fazer todos os jovens arranjarem namoro. A legítima alcoviteira.

Óbvio que algumas pessoas adoravam o serviço prestado. Os tímidos, os encalhados, os feios, as mães que não tiveram coragem de abortar os filhos e agora viam reluzir no horizonte uma nova oportunidade de se verem livres deles, oferecendo-os como fruta na feira.

Enfim, a alcoviteira se aproveitava da fraqueza das pessoas, fossem elas fraquezas de autoestima e autoconfiança, ou de caráter, como a dela.

Não preciso ir longe, nem contar muitas histórias pra dizer que isso não dá certo. O comportamento recorrente era ela sumir quando algo dava errado ou sair de fininho com argumentos do tipo "eu só apresentei vocês, dali pra frente o que houve não me diz respeito". Seria aceitável, se ela realmente deixasse  o relacionamento ao sabor do vento, mas não, ela ficava em volta, borboletiando e interferindo sempre que possível.

Com o tempo a imagem dela se desgastou, e como sempre, mudou de igreja pra poder seguir na prática do pecado ao invés de mudar de atitude.

Então, regozijemo-nos, pois acabou o problema e agora nossos jovens poderão desfrutar de uma vida em tranquilidade e santidade nos relacionamentos, sem um cupido made in gospelândia pra se atravessar no caminho!

Err... Não...

Eis que surge numa outra igreja uma profeta! A nova sensação do momento! Ela descreve o seu príncipe encantado com riqueza de detalhes. Ela revela entre uma labaxúria e outra até se ele tem chulé!
E se você fosse um varão buscando uma serva fiel, maravilha! Ela fazia questão de dizer "que via uma moça de olhos claros no seu caminho".

Olhos claros no sul? É o mesmo que dizer que tem água no mar!

Acontece que em muitos casos o povo é besta. Gosta de ser iludido.

Como se não bastasse a criatura profetizar casamento (detalhe que ela nunca profetizava que alguém ia ficar solteiro), caso chegasse um casal pra pedir revelamento pro oráculo, como eles já tinham a área problemática resolvida, ela se cascava a profetizar sobre o próximo passo.

"Eis que vos digo, sereis grandes na minha obra, os levarei a lugares que nunca imaginastes conhecer, trareis muitas vidas, muitas vidas, ohhhhhhh, muitas shhhhhhh vidassssss."

Pitonisa de Delfos
Tchê, que vontade de desmascarar uma treva dessas na frente de todo mundo. Mas infelizmente não é seguro, nem viável. O povo hipnotizado e ensandecido, escutando exatamente aquilo que massageia o ego, se transforma num bicho brabo e descontrolado capaz das maiores atrocidades. Qualquer um que se atrevesse a tocar na ungidona seria linchado! A Pitonisa de Delfos era mais simpática...

E aí o povo saía de lá do encontro com Jezabel (Apocalipse 2:18-22) cheio de falsas esperanças, prontos para se frustrarem na primeira curva mais complicada que a vida apresentasse em seguida.

Até hoje, eu não acredito em profecia pra casamento, chamado, emprego, decisão na justiça ou qualquer outra coisa para a qual não seja realmente necessária.

Interferir na vida do outro assumindo um papel que deveria ser desempenhado apenas pelo próprio Deus, além de ser muito presunçoso, ainda é extremamente cafajeste. É um abuso nos dois sentidos.
É um abuso acreditar que Deus pode ser escarnecido impunemente, e um abuso achar que pode fazer as pessoas de idiota impunemente.

O relacionamento é algo que Deus criou para ser construído por DUAS pessoas (não 3), começando por uma amizade que evolui para uma compatibilidade de identidades, que pode evoluir para um planejamento de objetivos mútuos, que fluiria naturalmente para um casamento. Isso é vida na prática. Dispensa alcoviteiros. Falando ou não em línguas estranhas.

Quanto à missão (não concordo com o termo "chamado" no contexto gospelento), David Wilkerson resumia mais ou menos assim: Descubra as necessidades do meio onde você vive e as habilidades que você possui e confronte essas duas variáveis. Quando vir suas habilidades suprirem necessidades, ali está o seu chamado.

Eu precisei juntar muitos cacos de gente que se frustrou de forma gigantesca com profetadas e interferências desnecessárias de terceiros em suas vidas. Até hoje me pergunto (pois realmente não entendo) qual a motivação das pessoas ao procurarem essas bizarrices. Quando eu frequentei reuniões um tanto quanto bizarras dentro de movimentos místicos evangélicos, eu queria sempre o que quero até hoje, transformação, arrependimento, conversão, uma cidade melhor, uma igreja melhor. Nunca achei que meu relacionamento fosse tema profético! Nunca senti necessidade de ter alguém prevendo meu futuro. E mesmo assim previram, profetizaram, fizeram atos proféticos e não aconteceu nada daquilo que foi dito.

Por outro lado, aquilo que o Senhor me disse no íntimo, sozinho no meu quarto, nos meus sonhos, orando entre amigos sem frenesi ou mesmo através de pessoas cuja vida é séria e não circense, cumpriu-se.

Nunca tive problemas com revelação profética, só com falsos profetas.

Na igreja eu aprendi que os falsos profetas existem, mas que na verdade eles não passam de meros alcoviteiros tentando montar um relacionamento entre a Noiva de Cristo e as trevas.

E não precisamos deles. Nem desses relacionamentos. Nem dos alcoviteiros. Nem das trevas.

Livre-se deles.

Livre-se em Cristo.


Coisas Que Aprendi Na Igreja
2009-2014


Juliano G. Leal
MARP

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